Saúde mental

Da busca pela perfeição à saúde mental: quando os padrões de beleza ultrapassam a adolescência

Por Alessandra Conde

Uma reflexão sobre como os padrões de beleza e a comparação nas redes sociais podem influenciar a construção da autoimagem na adolescência e repercutir na autoestima e na saúde mental ao longo da vida.

Padrões de beleza nas redes sociais e seus impactos na autoimagem, autoestima e saúde mental de adolescentes e adultos.

A adolescência é uma fase marcada por intensas transformações físicas, emocionais e sociais. É nesse período que muitos jovens começam a construir sua identidade, desenvolver sua autoestima e encontrar formas próprias de perceber a si mesmos e ao mundo. Nesse processo, a aceitação pelos pares também ganha importância, fazendo com que o olhar do outro possa ocupar um espaço significativo na maneira como o adolescente passa a se perceber.

Em uma sociedade cada vez mais conectada e orientada pela imagem, essa experiência ganhou uma nova dimensão. As redes sociais passaram a fazer parte do cotidiano dos adolescentes e, com elas, também se ampliou o contato com referências sobre aquilo que é considerado belo, desejável e socialmente valorizado.

Redes sociais, comparação e a construção da autoimagem

Plataformas como Instagram e TikTok oferecem acesso constante a imagens e vídeos nos quais corpos considerados perfeitos, rostos modificados por filtros, rotinas aparentemente impecáveis e vidas cuidadosamente editadas são apresentados diariamente. Ainda que a comparação social não tenha surgido com as redes sociais, essas plataformas aumentaram de maneira significativa as possibilidades de comparação e a frequência com que ela acontece.

Se antes o adolescente se comparava principalmente com colegas da escola, amigos ou pessoas próximas, hoje ele pode ter diante de si milhares de imagens disponíveis a qualquer momento. Ao mesmo tempo, curtidas, comentários, compartilhamentos e número de seguidores acrescentam outro elemento a essa experiência: a possibilidade de medir, de alguma maneira, a reação do outro àquilo que é mostrado.

Nesse contexto, a pergunta “como eu me vejo?” pode começar a dividir espaço com outra: “como os outros me veem?”. Quando a percepção sobre si passa a depender excessivamente desse olhar externo, podem surgir insatisfação corporal, sentimentos de inadequação e uma necessidade cada vez maior de aprovação.

Estudos apontam que a preocupação excessiva com a aparência pode estar associada à baixa autoestima, ao isolamento social e a sintomas de ansiedade e depressão (Lira et al., 2017; Ribeiro et al., 2022). Isso merece atenção especialmente na adolescência, quando tantas referências sobre identidade, pertencimento e valor pessoal ainda estão sendo construídas.

Quando a adolescência termina, mas a insegurança permanece

Embora a adolescência termine, nem tudo o que foi construído durante esse período fica para trás. A identidade continua se transformando ao longo da vida, mas algumas experiências vividas nessa fase podem participar da maneira como, mais tarde, o adulto irá se relacionar consigo mesmo, com seu corpo e com as outras pessoas.

Na vida adulta, isso pode aparecer de diferentes maneiras: na dificuldade em se sentir suficientemente bonito ou interessante, no medo excessivo de críticas, no desconforto ao ser fotografado, na comparação constante ou na necessidade de validação externa. Às vezes, aparece como uma sensação difícil de nomear, mas bastante presente: a de nunca estar à altura dos outros.

E o objeto da comparação também pode mudar. Já não se trata somente de alcançar determinado corpo ou aparência. Aos poucos, entram nessa mesma lógica a carreira bem-sucedida, o relacionamento feliz, a casa bonita, as viagens, a produtividade e a necessidade de demonstrar que a vida está dando certo.

Assim, as redes sociais podem continuar alimentando uma experiência que começou muito antes: a sensação de que é preciso corresponder a determinadas expectativas para ser aceito e valorizado.

Quando a relação com a aparência se transforma em sofrimento

Isso não significa que toda preocupação com a aparência represente um problema psicológico. Cuidar do corpo, gostar de se arrumar, desejar mudanças ou sentir satisfação com a própria aparência faz parte da experiência de muitas pessoas.

A questão merece atenção quando a aparência começa a ocupar um espaço excessivo na vida e interfere na autoestima, nos relacionamentos, na alimentação, na vida social ou no bem-estar emocional. Nesses casos, a relação com a própria imagem deixa de ser apenas uma questão estética e pode se transformar em fonte importante de sofrimento.

A relação conflituosa com a imagem corporal pode estar presente em diferentes formas de sofrimento psíquico e também em transtornos como ansiedade, depressão, transtornos alimentares e transtorno dismórfico corporal.

No transtorno dismórfico corporal, por exemplo, existe uma preocupação intensa com uma ou mais características da aparência percebidas como defeituosas, ainda que sejam pouco perceptíveis ou mesmo não observadas pelas outras pessoas. Nos transtornos alimentares, por sua vez, questões relacionadas à imagem corporal também podem assumir um papel importante. São quadros complexos, no entanto, e não podem ser explicados exclusivamente pela influência dos padrões de beleza ou das redes sociais.

Por isso, mais importante do que estabelecer uma relação simples de causa e efeito é compreender cada pessoa a partir de sua história, de suas relações e da maneira singular como essas experiências foram vividas e ganharam significado.

A imagem corporal é muito mais do que aquilo que vemos no espelho

A própria ideia de imagem corporal nos ajuda a ampliar essa compreensão. Quando falamos sobre ela, não estamos nos referindo somente às características físicas de uma pessoa, mas também às percepções, aos pensamentos, às emoções e às experiências relacionadas ao próprio corpo.

Essa imagem não é construída de maneira isolada. Ela sofre influência das relações familiares, da cultura, dos grupos sociais e das experiências vividas ao longo da vida (Barros, 2005; Silva et al., 2018). Por isso, duas pessoas com características físicas semelhantes podem vivenciar seus corpos de maneiras completamente diferentes.

O espelho mostra uma imagem, mas a maneira como cada pessoa interpreta aquilo que vê também carrega sua própria história.

Construir uma relação mais saudável com a própria imagem, portanto, não significa abandonar os cuidados com o corpo ou deixar de desejar mudanças. Significa poder ampliar o olhar sobre si e reconhecer que identidade, autoestima e valor pessoal não podem ser reduzidos à aparência.

O papel da psicoterapia

A psicoterapia pode oferecer um espaço para compreender como a relação com a própria imagem foi sendo construída e quais experiências contribuíram para a maneira como a pessoa se percebe hoje.

Ao longo do processo terapêutico, podem surgir questões relacionadas à comparação, às expectativas internalizadas, à necessidade de aprovação e às formas muito rígidas de avaliar a própria aparência. Mais do que simplesmente aprender a “gostar do próprio corpo”, trata-se de compreender o lugar que esse corpo e o olhar do outro assumiram na história de cada pessoa.

Esse processo também pode favorecer a construção de outras referências sobre si. Afinal, identidade, autoestima e valor pessoal não se constituem apenas a partir da aparência, mas das relações, das experiências, das escolhas e da maneira singular como cada pessoa constrói sua trajetória.

Quando existe sofrimento intenso ou a presença de um transtorno mental, o acompanhamento psiquiátrico também pode ser importante. Psicologia e Psiquiatria podem atuar de maneira complementar, considerando diferentes aspectos do sofrimento e as necessidades de cada pessoa.

Em uma sociedade em que somos constantemente convidados a olhar, comparar e também a nos mostrar, talvez seja cada vez mais importante perceber quanto do nosso olhar sobre nós mesmos realmente nos pertence e quanto foi sendo construído a partir do olhar do outro.

Essa construção pode começar muito cedo e ganhar força na adolescência, mas não precisa permanecer da mesma maneira ao longo de toda a vida. A forma como nos percebemos também pode ser revisitada, compreendida e transformada.

Referências

BARROS, D. D. Imagem corporal: a descoberta de si mesmo. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, 2005.

LIRA, A. G. et al. Uso de redes sociais, influência da mídia e insatisfação com a imagem corporal de adolescentes brasileiras. Jornal Brasileiro de Psiquiatria, 2017.

RIBEIRO, B. G. et al. Imagem corporal e saúde mental em adolescentes: uma revisão integrativa. 2022.

SILVA, M. L. et al. Imagem corporal na adolescência: influências socioculturais e repercussões psicológicas. 2018.

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