saúde mental

Depressão: quando viver começa a exigir um esforço que ninguém vê

Por Alessandra Conde

A depressão vai além da tristeza e pode afetar a energia, o interesse pela vida, os pensamentos e as relações. Este texto aborda suas diferentes manifestações, a presença de ansiedade e desesperança, as possibilidades de tratamento e a importância de compreender cada pessoa para além do diagnóstico.

Barco solitário no oceano ao pôr do sol, sob um céu com nuvens, com o título “Depressão: quando viver começa a exigir um esforço que ninguém vê”.

Existem momentos em que nos sentimos tristes, desanimados ou sem energia. Uma perda, uma frustração, dificuldades no trabalho, conflitos nos relacionamentos ou períodos de grande sobrecarga podem afetar profundamente a maneira como nos sentimos. Essas experiências fazem parte da vida e nem toda tristeza significa depressão.

A depressão, no entanto, vai além de estar triste.

Ela pode modificar a maneira como a pessoa percebe a si mesma, o mundo ao seu redor e até aquilo que consegue imaginar para o próprio futuro. Aos poucos, atividades que antes faziam parte da rotina podem começar a exigir um esforço cada vez maior.

Levantar da cama, tomar banho, trabalhar, estudar, preparar uma refeição, responder uma mensagem ou encontrar alguém podem se transformar em tarefas difíceis de realizar. Algumas pessoas deixam de conseguir fazê-las. Outras continuam fazendo quase tudo, mas às custas de um esforço que dificilmente é percebido por quem está ao redor.

Por isso, nem sempre conseguimos reconhecer a depressão apenas olhando para alguém.

Às vezes, por fora, a vida continua. Por dentro, sustentá-la está se tornando cada vez mais difícil.

Depressão nem sempre se parece com tristeza

Quando pensamos em depressão, é comum imaginarmos alguém profundamente triste, chorando ou incapaz de realizar suas atividades. Embora isso possa acontecer, essa não é a única maneira como um quadro depressivo pode se apresentar.

Segundo documentos técnicos do Ministério da Saúde, a depressão pode envolver alterações no humor, na memória e na concentração, perda de interesse ou prazer, desesperança, isolamento social, redução da energia e mudanças no sono e no apetite (Brasil, Ministério da Saúde, 2022).

Algumas pessoas descrevem menos uma tristeza e mais uma sensação de vazio, distanciamento ou indiferença. Aquilo que antes despertava interesse parece não produzir mais o mesmo efeito. Outras percebem principalmente irritabilidade, ansiedade, inquietação ou uma preocupação constante que parece não desligar.

Também existem pessoas que continuam trabalhando, estudando, cuidando da casa, dos filhos e cumprindo compromissos. Talvez ninguém perceba o que está acontecendo justamente porque elas continuam funcionando.

Mas funcionar não significa necessariamente estar bem.

Às vezes, o que mudou não foi aquilo que a pessoa consegue fazer, mas o esforço necessário para continuar fazendo.

Quando aquilo que fazia sentido deixa de fazer

Um dos aspectos da depressão é a diminuição do interesse ou do prazer por atividades que antes eram significativas. Encontrar amigos, dedicar-se a um hobby, trabalhar ou simplesmente participar de momentos cotidianos pode deixar de despertar a mesma vontade.

Muitas vezes, a pessoa não entende por que se sente assim e começa a se cobrar: “Eu deveria estar feliz”, “não tenho motivos para estar desse jeito” ou “há pessoas passando por situações muito piores”. Essa tentativa de justificar ou comparar o próprio sofrimento pode acrescentar culpa a algo que já está sendo difícil.

Ter uma vida aparentemente organizada, pessoas queridas ou motivos para estar bem não impede alguém de desenvolver depressão.

“É como se eu não tivesse energia para nada”

A depressão também pode ser sentida no corpo. Cansaço persistente, alterações no sono e no apetite, diminuição do desejo sexual, lentificação e diferentes desconfortos físicos podem acompanhar o quadro. Baixa energia, cansaço e alterações do sono estão entre as manifestações descritas em documentos técnicos sobre depressão (Brasil, 2022).

E quando a depressão vem acompanhada de ansiedade?

Depressão nem sempre significa estar parado ou desacelerado. Sintomas ansiosos também podem estar presentes e fazer parte da experiência de muitas pessoas.

É possível sentir cansaço e falta de energia e, ao mesmo tempo, ter dificuldade para relaxar. A mente pode permanecer acelerada, com preocupações constantes, antecipação de problemas, irritabilidade, tensão e alterações no sono. Algumas pessoas também vivem uma sensação permanente de pressa, como se precisassem resolver tudo rapidamente ou estivessem sempre atrasadas, mesmo quando não existe uma urgência real.

Também pode ocorrer a ruminação, ou seja, um ciclo de pensamentos repetitivos, em que a pessoa volta constantemente às mesmas preocupações, situações ou erros que acredita ter cometido. Nesses momentos, pensar muito não significa encontrar uma solução: muitas vezes, esse movimento apenas aumenta o cansaço e a sensação de impotência.

Por isso, compreender a depressão exige olhar para além da tristeza. Os sintomas ansiosos também precisam ser considerados na avaliação e no cuidado.

Existem diferentes níveis de depressão

Nem todas as pessoas vivenciam a depressão da mesma maneira ou com a mesma intensidade.

Os episódios depressivos podem apresentar diferentes níveis de gravidade. Essa avaliação considera tanto os sintomas quanto o impacto provocado no funcionamento cotidiano (Brasil, 2022).

Em um episódio leve, existe sofrimento, mas geralmente ainda é possível manter boa parte das atividades. Na depressão moderada, os sintomas passam a interferir de maneira mais significativa nos estudos, no trabalho, nas relações e nas tarefas cotidianas. Nos quadros graves, o comprometimento pode ser intenso, dificultando inclusive atividades básicas e exigindo maior suporte e acompanhamento profissional.

Em alguns quadros graves também podem aparecer sintomas psicóticos.

Essas classificações orientam o cuidado, mas não servem para comparar sofrimentos. Um quadro considerado leve também merece atenção, e sua intensidade pode se modificar ao longo do tempo.

Por que alguém desenvolve depressão?

Não existe uma única causa para a depressão.

Sua compreensão envolve a interação de diferentes fatores biológicos, psicológicos e sociais. História de vida, predisposições individuais, perdas, situações traumáticas, relações, condições de saúde, isolamento social, dificuldades financeiras ou profissionais e períodos prolongados de estresse podem participar do desenvolvimento e da manutenção do sofrimento.

Ao compreender a depressão pela perspectiva da Gestalt-terapia, é importante considerar também o contexto em que a pessoa está inserida: suas relações, sua história e as condições sociais, culturais e familiares que atravessam sua experiência. Assim, o olhar se amplia para além dos sintomas e busca compreender a pessoa em sua singularidade.

Há uma história por trás daquele sofrimento. Há relações, experiências, perdas, expectativas, formas de enfrentar dificuldades e circunstâncias atuais que também precisam ser consideradas.

Uma mesma situação pode ser vivida de maneiras muito diferentes por duas pessoas, porque cada uma chega até ela com sua própria história, seus recursos, suas relações e sua forma de estar no mundo. Da mesma maneira, sintomas semelhantes não significam experiências iguais.

Quando fica difícil imaginar que as coisas possam melhorar

A depressão também pode afetar a maneira como a pessoa percebe o futuro. A desesperança e a sensação de desamparo estão entre as experiências que podem fazer parte de um quadro depressivo.

Aos poucos, pode surgir a sensação de que nada vai mudar, de que os problemas não têm solução ou de que não existem outras possibilidades. Em momentos de maior sofrimento, podem aparecer sentimentos de inutilidade, a percepção de ser um peso para os outros e pensamentos como “não aguento mais”, “seria melhor não acordar” ou ideias relacionadas à própria morte.

Essas manifestações precisam ser levadas a sério. Não são sinais de fraqueza ou dramatização, mas indicam um sofrimento importante e a necessidade de cuidado profissional.

Quando alguém já não consegue imaginar que as coisas possam ser diferentes, mais do que pedir que “pense positivo”, é importante oferecer apoio e ajudá-lo a não permanecer sozinho com esse sofrimento.

Quando procurar ajuda e quais são as possibilidades de tratamento?

Não é necessário esperar que a vida se torne insustentável para procurar ajuda. Quando mudanças no humor, no interesse pelas atividades, na energia, no sono, na concentração ou na capacidade de realizar tarefas persistem e começam a provocar sofrimento ou prejuízos no cotidiano, é importante buscar avaliação profissional.

O diagnóstico não deve partir apenas de uma lista de sintomas. É preciso considerar sua duração e intensidade, o impacto na vida cotidiana, a história da pessoa e outras condições que possam estar relacionadas ao quadro.

A depressão tem tratamento, e esse cuidado pode acontecer de diferentes formas, de acordo com as necessidades de cada pessoa e com a intensidade do sofrimento. A psicoterapia é uma das possibilidades e, em alguns casos, o acompanhamento psiquiátrico e o uso de medicação também podem ser necessários. Esses cuidados não precisam acontecer de forma separada: quando indicado, psicólogo e psiquiatra podem atuar de maneira complementar ao longo do tratamento.

O cuidado também passa por aspectos simples e importantes da vida, como o sono, a alimentação, o movimento do corpo, as relações, os estudos ou o trabalho e a presença de pessoas com quem seja possível contar. Mas tudo isso precisa ser pensado a partir do que cada pessoa consegue fazer naquele momento. Quando até as tarefas mais simples já exigem muito esforço, cuidar de si não deveria se transformar em mais uma lista de coisas a cumprir. Muitas vezes, esses cuidados podem ser retomados aos poucos, acompanhando o tempo e as possibilidades de cada um.

Compreender a pessoa para além do diagnóstico

Na Gestalt-terapia, o diagnóstico é importante, mas não define sozinho quem é aquela pessoa ou explica tudo o que ela está vivendo. O olhar se amplia para sua história, suas relações, o momento atual e a maneira como ela vem encontrando formas de lidar com suas experiências.

Isso é especialmente importante na depressão. Duas pessoas podem apresentar sintomas semelhantes e, ainda assim, viver esse sofrimento de maneiras muito diferentes. Por isso, além de reconhecer os sintomas, buscamos compreender como aquela pessoa está vivendo e o que está acontecendo em sua relação consigo mesma e com o mundo.

A psicoterapia pode ser um espaço para reconhecer necessidades, compreender formas de se relacionar, perceber limites e recuperar, gradualmente, possibilidades que foram ficando reduzidas durante o período de maior sofrimento.

Cuidar nem sempre significa simplesmente “voltar a ser quem era”. O processo terapêutico também pode ajudar a compreender como a vida vinha sendo vivida e a construir novas possibilidades. Muitas vezes, isso começa com pequenos movimentos: falar sobre o que sente, pedir ajuda, reconhecer uma necessidade, retomar um vínculo ou voltar a se interessar por algo.

Quando viver começa a exigir um esforço que ninguém vê, um dos primeiros movimentos de cuidado pode ser justamente poder compartilhar esse peso e não precisar continuar sustentando tudo sozinho.

Referências

BRASIL. Ministério da Saúde. Depressão. Saúde de A a Z. Brasília: Ministério da Saúde.

BRASIL. Ministério da Saúde. Linha de Cuidado para Depressão no Adulto. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Brasília: Ministério da Saúde, 2022.

DALGALARRONDO, Paulo. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019.

ELISIÁRIO, Mônica Araújo Rodrigues. Depressão em Gestalt-Terapia. IGT na Rede, v. 7, n. 13, p. 278-285, 2010.

YANO, Luciane Patrícia. A clínica em Gestalt-terapia: a gestalt dos atendimentos nos transtornos depressivos. Revista do NUFEN, v. 7, n. 1, p. 67-85, 2015.

ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE. Depressão. OPAS/OMS.

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