saúde mental

Entre o amor e o cansaço: a ambivalência na maternidade

Por Alessandra Conde

A maternidade pode reunir amor, alegria, cansaço, irritação e necessidade de afastamento. Este texto aborda a ambivalência materna, questiona o ideal da mãe perfeita e, sob o olhar da Gestalt-terapia, destaca a importância de reconhecer limites, necessidades e possibilidades de apoio.

Mãe sentada próxima a uma janela, segurando um bebê adormecido no colo, com expressão de afeto e cansaço. Ao lado, aparece o título “Entre o amor e o cansaço: a ambivalência na maternidade”.

A maternidade costuma ser apresentada como uma experiência naturalmente plena, marcada pelo amor incondicional, pela realização e por uma disponibilidade quase inesgotável. Essa imagem aparece nas histórias familiares, na publicidade, nas redes sociais e até mesmo em alguns discursos profissionais. Pouco se fala, porém, sobre as contradições que também fazem parte dessa vivência.

Uma mulher pode amar profundamente seu filho e, ao mesmo tempo, sentir falta da vida que tinha antes. Pode desejar estar perto e precisar de distância. Pode experimentar alegria, orgulho e ternura, mas também cansaço, irritação, solidão, medo e vontade de ficar sozinha. Esses sentimentos não anulam o amor nem significam que ela seja uma mãe ruim. Eles mostram que a maternidade é uma experiência humana e, portanto, complexa.

O ideal da mãe que dá conta de tudo

A maneira como compreendemos a maternidade não é apenas individual. Ela foi construída historicamente e é atravessada por valores sociais, culturais, religiosos e familiares. Ao longo do tempo, consolidou-se a imagem da mãe naturalmente amorosa, abnegada e inteiramente responsável pelo desenvolvimento e pelo bem-estar dos filhos.

Aquilo que hoje reconhecemos como cuidado materno foi sendo construído ao longo da história. As expectativas dirigidas às mães acompanharam mudanças na organização das famílias, nas relações de gênero e na maneira como a sociedade passou a compreender a infância. Apesar dessas transformações, ainda persiste a ideia de que cuidar seria uma habilidade naturalmente feminina e de que uma boa mãe deveria estar sempre disponível para os filhos.

A maternidade também pode ser atravessada por expectativas herdadas de outras gerações. Ideias sobre o que significa ser uma boa mãe circulam nas famílias e podem ser incorporadas mesmo quando não correspondem à realidade ou aos desejos daquela mulher. A dedicação integral, a renúncia e a disponibilidade permanente passam, então, a ser percebidas como condições necessárias para exercer a maternidade, dificultando a preservação de outros aspectos de sua identidade.

O cansaço pode ser interpretado como incapacidade; a irritação, como falta de amor; o desejo de retomar projetos pessoais, como egoísmo; e a necessidade de ajuda, como sinal de fracasso. Surge, então, uma culpa que nem sempre está relacionada a algo que a mãe tenha feito, mas à distância entre a mulher real e a mãe idealizada que acredita que deveria ser.

Esse ideal ganhou novas formas na contemporaneidade. Além das expectativas familiares e culturais, as redes sociais oferecem imagens cuidadosamente selecionadas de mães felizes, produtivas, pacientes e aparentemente capazes de conciliar todos os aspectos da vida. O contato frequente com essas representações pode ampliar a comparação, a autocobrança e a sensação de inadequação, especialmente quando as dificuldades da maternidade permanecem pouco visíveis.

A ambivalência também faz parte do vínculo

Ambivalência significa reconhecer que sentimentos aparentemente opostos podem coexistir. Na maternidade, isso pode aparecer de muitas formas: desejar intensamente um filho e sentir medo diante da gravidez; emocionar-se com o nascimento e estranhar a nova rotina; amar o bebê e sofrer com a perda de liberdade; querer acompanhar cada etapa do crescimento e, ao mesmo tempo, desejar recuperar espaços pessoais.

A ambivalência não é indiferença nem ausência de vínculo. Ela expressa os diferentes movimentos que surgem quando uma experiência transforma profundamente a vida de alguém.

A possibilidade de amar os filhos e, simultaneamente, sentir-se cansada, irritada ou desejosa de distância torna-se ainda mais difícil de admitir quando a maternidade é associada apenas à realização. Essa contradição pode se intensificar em contextos nos quais a mulher concentra as tarefas domésticas, os cuidados e a responsabilidade pela organização familiar. Nesses casos, o sofrimento não pode ser compreendido somente como uma dificuldade individual: ele também se relaciona às condições concretas em que a maternidade é vivida.

Reconhecer a ambivalência não significa afirmar que todas as mulheres vivem a maternidade da mesma maneira. A experiência é atravessada pela história pessoal, pela relação com a própria mãe, pelas condições da gestação e do nascimento, pela saúde do bebê, pela situação financeira, pelo trabalho, pela qualidade das relações familiares e pela presença ou ausência de uma rede de apoio.

Por isso, não é possível compreender uma mãe isoladamente, como se tudo dependesse de sua capacidade emocional ou de seu esforço individual. É necessário olhar também para o ambiente em que ela cuida.

Quando a maternidade ocupa todos os espaços

Com a chegada de um filho, muitas mulheres passam a ser reconhecidas quase exclusivamente como mães. Suas necessidades, seus interesses e até seu corpo podem ficar em segundo plano. Aos poucos, a pergunta “como você está?” é substituída por perguntas sobre o bebê, a alimentação, o sono e o desenvolvimento da criança.

Essa mudança pode produzir a sensação de que a mulher que existia antes desapareceu. O cuidado com os filhos passa a ocupar tanto espaço que outras dimensões da vida (profissional, afetiva, social, conjugal e sexual) deixam de receber atenção.

Algumas mulheres também podem ter dificuldade para reconhecer suas próprias necessidades. Depois de tanto tempo respondendo ao que os filhos, a família ou a rotina exigem, descansar, pedir ajuda ou fazer algo apenas para si pode vir acompanhado de culpa.

Preservar interesses, vínculos e projetos pessoais, entretanto, não diminui a maternidade. Reconhecer que a mãe também possui limites e necessidades pode tornar o cuidado mais possível e menos sustentado pela exaustão.

A sobrecarga não deve ser confundida com falta de habilidade. Muitas vezes, ela indica uma distribuição desigual das responsabilidades. Mesmo quando outras pessoas participam da rotina familiar, é comum que a mulher continue responsável por antecipar necessidades, organizar horários, acompanhar questões escolares e médicas e lembrar tudo o que precisa ser feito.

Não basta, portanto, dizer que uma mãe precisa se cuidar quando não há com quem dividir tarefas, quando ela não consegue descansar ou quando carrega sozinha a responsabilidade mental pela família. O cuidado consigo depende também de condições concretas e de apoio.

Um olhar da Gestalt-terapia

Para a Gestalt-terapia, uma pessoa não pode ser compreendida separadamente do contexto em que vive. A experiência materna não acontece apenas “dentro” da mulher: ela se forma na relação com o filho, com a família, com o trabalho, com as condições materiais e com as expectativas presentes em seu meio.

Desse modo, em vez de perguntar apenas por que uma mãe está irritada, cansada ou desejando se afastar, é importante compreender como sua vida está organizada naquele momento:

  • Quais responsabilidades ela está assumindo?
  • Com quem pode contar?
  • Quais necessidades vêm sendo adiadas?
  • Que expectativas acredita precisar cumprir?
  • Quanto espaço existe para que ela reconheça e expresse o que sente?

Sob essa perspectiva, a vivência materna precisa ser compreendida em sua singularidade e em relação ao contexto no qual acontece. As emoções, as alterações corporais, os vínculos, as condições sociais e os recursos disponíveis participam de uma mesma experiência. Por isso, olhar para a mãe em sua totalidade também significa considerar sua rede de apoio e as possibilidades reais de cuidado existentes em seu ambiente.

A Gestalt-terapia também compreende que sentimentos diferentes podem surgir como respostas legítimas a necessidades igualmente reais. O desejo de proximidade pode conviver com a necessidade de recolhimento. A alegria de acompanhar o crescimento do filho pode estar acompanhada pelo luto diante da passagem do tempo. O amor pode coexistir com raiva, frustração e exaustão.

Esses movimentos podem ser compreendidos como polaridades: experiências que parecem opostas, mas pertencem à mesma pessoa e à mesma situação. O problema não está na existência dessas diferenças, mas na impossibilidade de reconhecê-las e integrá-las.

Quando determinados sentimentos são considerados inaceitáveis, a mulher pode tentar escondê-los até de si mesma. Aquilo que não encontra espaço para ser reconhecido, entretanto, não necessariamente desaparece. Pode surgir na forma de culpa, ansiedade, irritabilidade, tensão corporal, isolamento ou sensação constante de inadequação.

Perceber as próprias necessidades

Na perspectiva gestáltica, ampliar a consciência não significa julgar ou corrigir o que a pessoa sente. Significa ajudá-la a perceber, com mais clareza, o que está acontecendo em sua experiência: como está seu corpo, quais emoções surgem, do que precisa, quais limites foram ultrapassados e quais possibilidades de apoio existem naquele momento.

Uma mãe pode perceber, por exemplo, que sua irritação aumenta quando passa muitos dias sem dormir adequadamente. Pode reconhecer que o desejo de se afastar não representa falta de amor, mas uma necessidade urgente de descanso. Também pode identificar que parte de sua culpa vem de expectativas familiares ou sociais que foram assumidas como verdades.

Essa ampliação da consciência permite diferenciar aquilo que pertence à própria experiência daquilo que foi imposto como um “dever ser”. A mulher pode começar a perguntar não apenas o que esperam dela como mãe, mas que maternidade é possível construir dentro de sua realidade.

Diante das mudanças trazidas pela maternidade, cada mulher procura encontrar maneiras possíveis de seguir: reorganiza a rotina, revê expectativas, pede ajuda, estabelece limites e constrói seu próprio jeito de cuidar. Isso, porém, não significa que ela precise se adaptar indefinidamente à falta de apoio, à exaustão ou à sobrecarga. Muitas vezes, continuar dando conta de tudo pode esconder o quanto aquela mulher está cansada e precisando ser cuidada também.

Por essa razão, a rede de apoio tem uma função fundamental. O suporte recebido de familiares, companheiros, amigos, grupos e profissionais pode ampliar as possibilidades da mulher e ajudá-la a desenvolver recursos próprios. O apoio não retira sua autonomia; oferece condições para que ela não precise enfrentar sozinha todas as exigências do cuidado.

Da mãe ideal para a mãe possível

Questionar a idealização da maternidade não significa diminuir a importância do vínculo entre mãe e filho. Significa reconhecer que relações reais não são construídas pela ausência de conflitos, mas pela possibilidade de percebê-los, atravessá-los e, quando necessário, reparar aquilo que aconteceu.

Uma mãe possível não é aquela que acerta sempre. É aquela que, dentro de suas condições, procura estar presente, reconhece quando precisa rever alguma atitude e também percebe os próprios limites. Ela pode perder a paciência, precisar de ajuda, desejar uma pausa e continuar sendo uma mãe cuidadosa.

A aproximação com a experiência real permite substituir a pergunta “por que não consigo ser a mãe que deveria?” por questões mais concretas:

  • O que está me sobrecarregando?
  • Que tipo de apoio está faltando?
  • O que sinto que não posso admitir?
  • Quais expectativas são realmente minhas?
  • O que preciso preservar para continuar existindo para além da função materna?
  • Como as responsabilidades podem ser compartilhadas?

Essas perguntas não oferecem uma receita, mas abrem espaço para que cada mulher encontre uma maneira própria e possível de viver a maternidade.

Quando procurar ajuda

Nem sempre é fácil perceber quando aquilo que se sente deixou de ser apenas o cansaço de dias difíceis. Muitas mães se acostumam a seguir funcionando, mesmo exaustas, e acabam adiando o próprio cuidado porque acreditam que precisam continuar dando conta de tudo.

Pedir ajuda não significa que a mulher ame menos os filhos ou que tenha fracassado como mãe. Às vezes, significa apenas reconhecer que algo está pesado demais para ser sustentado sozinha.

Pode ser importante conversar com um profissional quando a culpa, a tristeza, a ansiedade ou a irritação passam a ocupar grande parte dos dias; quando descansar parece não ser suficiente; quando a mulher já não se reconhece ou sente que perdeu o contato com aquilo que costumava lhe fazer bem. Também merece atenção a sensação frequente de incapacidade, o desejo constante de fugir e a dificuldade de se aproximar do bebê ou dos filhos.

A psicoterapia pode oferecer um espaço no qual a mulher não precise parecer forte, grata ou feliz o tempo todo. Um lugar onde possa falar sobre amor e cansaço, proximidade e distância, alegria e arrependimento, sem que esses sentimentos sejam imediatamente transformados em julgamento.

Nesse processo, não se busca ensinar uma maneira correta de ser mãe. O cuidado está em compreender como aquela mulher vive sua maternidade, o que tem sido exigido dela, quais necessidades ficaram sem espaço e que formas de apoio podem ser construídas.

Referências

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MOURA, S. M. S. R.; ARAÚJO, M. F. A maternidade na história e a história dos cuidados maternos. Psicologia: Ciência e Profissão, v. 24, n. 1, p. 44–55, 2004.

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