
Nos últimos anos, a saúde mental passou a ocupar um espaço cada vez maior nas discussões sobre qualidade de vida. Apesar disso, alguns transtornos ainda são cercados por dúvidas, preconceitos e interpretações equivocadas. Entre eles está o Transtorno de Personalidade Borderline (TPB), uma condição frequentemente associada à instabilidade emocional, impulsividade e dificuldades nos relacionamentos, mas que, na prática clínica, revela um sofrimento muito mais profundo e complexo.
Segundo a Associação Americana de Psiquiatria (APA, 2014), o TPB caracteriza-se por um padrão persistente de instabilidade nos afetos, na autoimagem e nos relacionamentos interpessoais, acompanhado de impulsividade significativa. Entretanto, reduzir o transtorno a uma lista de sintomas pode limitar a compreensão da experiência vivida por essas pessoas.
Por trás das crises emocionais, dos conflitos relacionais e dos comportamentos impulsivos, frequentemente existe alguém tentando lidar com sentimentos intensos de abandono, insegurança, vazio e dificuldade em construir uma identidade estável.
Quando as emoções se tornam difíceis de sustentar
Todos nós experimentamos tristeza, raiva, medo e frustração ao longo da vida. A diferença é que, para muitas pessoas com funcionamento borderline, essas emoções costumam ser vividas de maneira muito mais intensa e avassaladora.
Pequenos conflitos podem ser percebidos como grandes rejeições. Mudanças em relacionamentos importantes podem despertar sentimentos profundos de abandono. Em alguns momentos, a dor emocional torna-se tão intensa que a pessoa sente dificuldade para organizar pensamentos, regular comportamentos e encontrar alternativas para lidar com o sofrimento.
Delgalarrondo (2019) descreve que sentimentos crônicos de vazio, instabilidade afetiva, impulsividade e fragilidade da autoimagem estão entre os aspectos centrais desse funcionamento. Não é incomum que a pessoa oscile rapidamente entre momentos de intensa proximidade e períodos de afastamento, alternando idealização e decepção nos relacionamentos.
Em situações de maior sofrimento, podem surgir comportamentos autolesivos, uso abusivo de substâncias, gastos impulsivos ou outras formas de tentar aliviar temporariamente uma dor emocional que parece insuportável.
A importância do diagnóstico e do acompanhamento psiquiátrico
Receber um diagnóstico de Transtorno de Personalidade Borderline pode gerar medo, dúvidas e até desesperança. No entanto, o diagnóstico não deve ser visto como um rótulo, mas como uma ferramenta que auxilia na compreensão do sofrimento e na construção de estratégias de cuidado.
Nesse contexto, o acompanhamento com psiquiatra desempenha papel fundamental. Além da avaliação diagnóstica, o psiquiatra investiga possíveis transtornos associados, como depressão, ansiedade, transtornos alimentares ou dependência química, condições frequentemente observadas em conjunto com o TPB.
Embora não exista uma medicação específica para o transtorno, alguns medicamentos podem auxiliar no manejo de sintomas importantes, reduzindo a intensidade das oscilações emocionais, da impulsividade, da ansiedade ou dos quadros depressivos. Em situações de crise, risco de suicídio ou comportamentos autolesivos, o acompanhamento psiquiátrico torna-se ainda mais necessário, oferecendo suporte clínico e segurança ao paciente.
A literatura demonstra que o tratamento tende a apresentar melhores resultados quando ocorre de forma integrada, envolvendo acompanhamento médico e psicoterapêutico (Cunha et al., 2023).
O que a psicoterapia pode oferecer?
Se a psiquiatria contribui para o manejo clínico dos sintomas, a psicoterapia oferece um espaço para compreender aquilo que está por trás deles.
Na clínica psicológica, o foco não está apenas em controlar comportamentos ou reduzir crises, mas em ajudar a pessoa a compreender sua própria história, seus modos de se relacionar e a forma como organiza suas experiências emocionais.
Sob a perspectiva da Gestalt-terapia, o sofrimento não é compreendido apenas como um conjunto de sintomas, mas como uma maneira particular de estar em contato consigo mesmo, com os outros e com o mundo (Pinto, 2015).
Muitas pessoas com funcionamento borderline apresentam dificuldades para reconhecer suas necessidades, estabelecer limites saudáveis e sustentar relações sem medo constante de abandono ou rejeição. Frequentemente, buscam no outro a validação, a segurança ou a confirmação de sua própria identidade.
No setting terapêutico, o psicólogo auxilia o paciente a ampliar sua consciência sobre esses movimentos, identificando padrões que se repetem ao longo da vida. Aos poucos, a pessoa passa a reconhecer emoções, compreender gatilhos, desenvolver recursos de autorregulação emocional e construir formas mais saudáveis de se relacionar.
Trata-se de um processo gradual. Não se busca eliminar emoções intensas, mas ampliar a capacidade de reconhecê-las, compreendê-las e lidar com elas de maneira menos destrutiva.
O olhar da Gestalt-terapia para o Borderline
A Gestalt-terapia oferece contribuições importantes para a compreensão do funcionamento borderline ao deslocar o foco do diagnóstico para a experiência vivida pela pessoa.
Autores como Pinto (2015) descrevem que muitas dessas dificuldades podem ser compreendidas a partir das interrupções no contato e da fragilidade na construção da identidade. Em vez de enxergar apenas comportamentos impulsivos ou relações instáveis, o terapeuta procura compreender como a pessoa tenta organizar sua existência, lidar com suas dores e encontrar formas de pertencimento.
Sob essa perspectiva, o sofrimento deixa de ser visto apenas como um problema a ser eliminado e passa a ser compreendido como uma expressão de necessidades emocionais que não encontraram caminhos satisfatórios de elaboração.
A terapia torna-se, então, um espaço de construção de awareness, ou consciência ampliada, favorecendo maior diferenciação entre o que pertence à própria pessoa e o que pertence ao outro, fortalecendo a autonomia, a responsabilização e a capacidade de sustentar relacionamentos mais saudáveis.
Há possibilidade de melhora?
A resposta é sim.
Embora o Transtorno de Personalidade Borderline possa causar sofrimento significativo, diversos estudos demonstram que pessoas que recebem acompanhamento adequado apresentam melhora importante ao longo do tempo. Muitos pacientes conseguem reduzir comportamentos autolesivos, desenvolver maior estabilidade emocional, fortalecer vínculos e construir projetos de vida mais consistentes.
Esse processo não acontece de forma rápida nem linear. Existem avanços, recaídas, momentos de maior estabilidade e períodos mais difíceis. Ainda assim, com suporte profissional adequado, é possível desenvolver recursos emocionais que permitam uma vida mais equilibrada e satisfatória.
Mais do que controlar sintomas, o objetivo do tratamento é ajudar a pessoa a construir uma relação mais saudável consigo mesma, com seus afetos e com aqueles que fazem parte de sua vida.
Referências
ASSOCIAÇÃO AMERICANA DE PSIQUIATRIA. DSM-5: Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. Porto Alegre: Artmed, 2014.
CUNHA, Ítalo Íris B. R. et al. Transtorno de personalidade borderline e suas implicações na vida social. Brazilian Journal of Implantology and Health Science, v. 5, n. 5, p. 5874-5885, 2023.
DELGALARRONDO, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019.
PINTO, E. B. Elementos para uma compreensão diagnóstica em psicoterapia: o ciclo do contato e os modos de ser. São Paulo: Summus, 2015.
